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Uma das histórias mais contadas e recontadas através dos tempos é a lenda em volta do mítico Rei Arthur e todos os personagens envolvidos com ele. Várias releituras foram feitas sobre esse jovem rei celta, que após receber a espada Escalibur, tornou-se o maior rei que a ilha da Grande Bretanha um dia possuiu. Podemos citar, mais recentemente, obras como as séries Merlin e a fresca e nova Cursed, da Netflix. Mas, a meu ver, nada se compara a versão épica escrita por Marion Zimmer Bradley, revisitando a história clássica e lendária sob uma outra ótica. Tendo como ponto de vista o olhar de Morgana, meia-irmã de Arthur e uma grande sacerdotisa de Avalon, As Brumas Avalon mostra uma visão feminina e pagã das lendas contadas desde antes da Idade Média. Essa resenha tratará de falar do primeiro livro da quadrilogia, chamado A Senhora da Magia, disponível na loja da Jambô em uma edição única de As Brumas de Avalon. Nele, Marion introduz os personagens que permearão toda a história, mas principalmente, nos conta sobre a infância de Morgana em Tintagel e posteriormente na corte do Rei Uther, e o resto de sua juventude na sagrada ilha de Avalon, com sua tia e sumo-sacerdotisa, a Dama do Lago Viviane.

Ligando as lendas aos fatos históricos, a autora menciona muitas vezes o domínio romano sobre o território da Gran Bretanha, a chegada do cristianismo e seu crescente domínio sobre a grande ilha, assim como as invasões bárbaras, tendo foco nos povos saxões, que vindos do norte, pretendiam dominar aquela região. Em verdade, no livro de Bradley, fora o constante perigo das invasões saxãs que fez com que Avalon, sob comando da Senhora do Lago e de Merlin, decidisse por colocar Uther Pedragon como o Grande Rei e, casando este com Igraine, ter um filho que seria preparado para ser o futuro Grande Rei, que afastaria os invasores e uniria a Gran Bretanha sob a bandeira da Grande Deusa.

Uma das coisas que eu mais admiro em A Senhora da Magia, e também em todos os outros livros da trilogia, é o fato de Marion mostrar um estudo profundo sobre a cultura dos povos celtas e bretões, além de ter dado uma pitada de realidade nas histórias, como o fato de Merlin ser um título e não um nome. De fato, eu tomo isso atualmente como uma verdade.

A escrita de Marion tem a densidade que necessita e, com um enredo dinâmico e atraente, consegue nos envolver em cada palavra, nos fazendo terminar o livro sem sequer nos darmos conta. Mesmo que, em algumas descrições e falas, possa causar certa raiva, como em como Viviane e Morgana são descritas por alguns personagens, ou como esta falou do bardo Kevin, mesmo estas vezes são justificáveis pela personalidade dos personagens e a criação de pessoas da época.

A autora fez uma coisa interessante ao unir alguns personagens em um só, sendo um desses personagens o próprio Merlin e uma figura tanto histórica quanto mítica, Taliesin. Outros dois personagens que foram juntos em um só foram Galahad e Lancelot. No livro, o nascido Galahad é filho de Viviane e um dos reis do sul e, ao ser criado por seu pai como cristão, adotou o nome com o qual foi chamado por seus companheiros de armas, Lancelot. Um adendo é que existe, neste livro, a introdução de um personagem criado por Marion, extremamente carismático e talentoso, chamado Kevin o Bardo.

E se estou falando de personagens, não posso evitar falar dos três que eu mais amei nesse primeiro livro. Tratam-se, é claro, de Morgana, Arthur e Kevin.

Arthur é, nesse primeiro livro, mostrado tanto no início da infância quanto já na entrada na vida adulta. Quando criança, é um menino doce, ingênuo, mas muito corajoso e totalmente desejoso do orgulho do pai, quase morrendo em uma de suas tentativas de se mostrar digno, isso logo antes de ser enviado para ser criado escondido em um dos reinos vassalos de Uther. Como adulto, Arthur continua mantendo a inocência e a bondade de anteriormente, mas fora convertido em um guerreiro forte e virtuoso. Principalmente, virou um homem apaixonado, tanto por sua família quanto pelo seu próprio senso de justiça.

Kevin pouco aparece em A Senhora da Magia, tendo mais destaque nos outros três livros, sendo apenas introduzido ao leitor durante a cena em que Taliesin o leva para uma reunião com Morgana e Viviane. Nesse breve momento, já dá para ver que toda a sua trajetória anterior o marcou para transformá-lo no que ele virou e que, apesar das descrições feitas por Morgana, o rapaz tem sua própria e peculiar beleza, que seduz aquele que lê e entende as dores e mágoas que o moldam.